A Quarta Interdisciplinar desta semana reuniu três dos quatro ex-diretores da Faculdade em uma mesa especial de comemoração aos 10 anos que a instituição completa em 2019.

Juntamente com os professores Mário Saad, Sérgio Salles e Peter Schulz, estavam também presentes os atuais diretor e diretor associado – Professores Álvaro D’Antona e Prof. Márcio Torsoni – e o reitor da Unicamp, Prof. Marcelo Knobel. A conversa com os ex-diretores relembrou momentos da história da criação da instituição, assim como trouxe reflexões sobre seu desenvolvimento e rumos tomados durante esta primeira década de existência (confira abaixo trechos dos depoimentos) e foi acompanhada por alunos, professores e funcionários.

Já em 2009, com a mudança da reitoria, os planos para a Faculdade se alteraram, pois havia outra concepção sobre como o novo campus deveria ser. Concomitantemente, houve também a mudança da diretoria da Faculdade, nesta época exercida pelo Professor Mauro Tereso (ele não pôde estar presente devido a contratempo de última hora), que era pró-tempore, pois ainda não existia a congregação da FCA – instância máxima deliberativa, estabelecida em 2013.

Assumiu então o Professor Mário Saad e, em 2010, foi elaborada a primeira proposta de certificação da Faculdade. Pouco tempo depois, Saad foi indicado para assumir a diretoria da Faculdade de Ciências Médicas e a Faculdade ficou poucos meses sem alguém indicado para o cargo, até receber o Professor Sérgio Salles – que permaneceu como diretor até abril de 2013, quando o Professor Peter Schulz foi escolhido como o primeiro diretor eleito pela comunidade, exercendo mandato até 2017. A partir de abril daquele ano tomou posse a nova diretoria (2017-2021), com os Professores Álvaro de Oliveira D’Antona (diretor) e Márcio Torsoni (diretor associado).

“A mesa foi bacana, boas lembranças, bom bate-bola sobre questões importantes sobre a universidade. Mas faltou uma costurada final. Foi destacado que a boa universidade é a de pesquisa. Ou do empreendedorismo. Ou do engajamento com a sociedade. Afinal, o que é a universidade? É tudo isso junto, além de outras missões e interesses. A universidade moderna é uma multiversidade, conceito delineado por Clark Kerr, reitor da Universidade da Califórnia nos idos dos anos 60 do século passado. Gerir isso é a mediação de múltiplos interesses. A universidade moderna é uma organização única! Importar modelos de gestão de outras organizações é algo que precisa ser discutido com muito cuidado. Quem lembrou disso, depois do evento foi Flávio Caju, Assistente Técnico da Faculdade”, lembrou o Prof. Peter Schulz em comentário após o evento.

 

Confira trechos dos depoimentos dos Professores:

 

“Há muito para fazer ainda, mas o desenvolvimento é visível”

“Vemos que a FCA já atingiu outro nível de maturidade nestes 10 anos. O que os próprios estudantes, professores e funcionários conseguiram fazer aqui, em tão pouco tempo, é algo realmente impressionante. Para quem vem de vez em quando aqui para Limeira, nota muita mudança, tanto na Faculdade como no entorno do campus – não havia absolutamente nada aqui em 2007, 2008. A própria presença da Faculdade é um vetor de desenvolvimento importante na região. Há muito para fazer ainda, mas o desenvolvimento é visível. Me sinto muito feliz de ter participado ativamente do início desta história e de ver hoje uma unidade com um grau de maturidade muito maior. Novamente, é claro que ainda são muitos os desafios que precisam ser enfrentados, mas eu gosto de lembrar que a própria Unicamp tem pouco mais de 50 anos. Claro que, para nós, parece muito, mas para uma Universidade, é pouca idade...estamos ainda engatinhando, somos muito novos. É impressionante, portanto, tudo o que a Unicamp conseguiu fazer mesmo com sua pouca idade. E todos aqui estão de parabéns pelo que tem conseguido fazer na FCA”.

Prof. Marcelo Knobel – Reitor da Universidade Estadual de Campinas

 

“Aqui nós temos funcionários excelentes, melhores do que em muita empresa privada. Na universidade pública nós temos excelentes recursos humanos”

“O Prof. Fernando Costa me convidou para assumir a diretoria da Faculdade. Como eu havia sido diretor da FCM e aqui seriam desenvolvidos cursos na área da saúde, ele achou que eu pudesse dar uma contribuição. Eu senti uma responsabilidade muito grande, pois uma universidade é boa ou ruim dependendo dos recursos humanos – professores e funcionários – que ela consegue atrair. Tivemos que nos concentrar muito para fazer os concursos, pois tínhamos que contratar docentes que estivessem habilitados para dar aula em mais que uma disciplina, e nós conseguimos contratar excelentes talentos, que ajudaram demais no início da Faculdade. Penso que, ainda hoje, precisamos fazer justiça à FCA, pois os docentes aqui devem ter uma das maiores cargas didáticas da Unicamp. É preciso lembrar também que, no idos de 2007, quando a Faculdade estava sendo planejada, foi prometido à Unicamp que haveria um aumento do percentual do ICMS a ser repassado pra cá, para maior contratação docente. Isso foi prometido e ainda não foi cumprido (...)”

“Passei somente um ano da minha vida aqui, mas tenho lembranças muito intensas deste período e me senti muito bem de ver como as coisas estão andando por aqui. Antes de ser indicado como diretor pró-tempore, eu era do conselho universitário e fui convidado para vir na inauguração da Faculdade, em 2008. Aquele dia foi muito movimentado, com a presença do então Governador José Serra, autoridades da cidade e da própria Unicamp. Houve até mesmo uma manifestação dos alunos da FT, que vieram com baterias e tudo o mais (...)”

“Durante minha gestão nós tínhamos um grupo muito restrito de funcionários, mas que desempenhavam muito bem suas funções. Aqui nós temos funcionários excelentes, melhores do que em muita empresa privada. É preciso destacar isso: na universidade pública nós temos excelentes recursos humanos. O exemplo dos funcionários da FCA nunca me saiu da cabeça”.

Prof. Mario Saad – docente da Faculdade de Ciências Médicas

 

“Não é fácil gerenciar uma unidade tão heterogênea, que agrega diferentes áreas do conhecimento...vocês que estão aqui todos os dias trabalhando, sabem...”

“Tenho vindo aqui de tempos em tempos e visto tremendo progresso. Na época em que vim trabalhar aqui, foi uma ótima oportunidade, porque a FCA propôs um modelo universitário diferente – não somente em relação à inexistência de departamentos, mas porque não havia faculdades. Em outros lugares da Unicamp, há institutos ou faculdades para cada curso, o que não ocorre aqui. Penso que a cara inicial que se quis dar para a FCA, que é a característica da interdisciplinaridade e de um modelo de gestão diferente dos modelos departamentais típicos, na essência, se manteve. Não é fácil gerenciar uma unidade tão heterogênea, que agrega diferentes áreas do conhecimento...vocês que estão aqui todos os dias trabalhando, sabem. Quando há departamentos, a gestão fica simplificada, mas também se perdem os desafios e as oportunidades que existem a partir da integração. Sei que a interdisciplinaridade não é, de maneira nenhuma, facilmente implantada e nunca estará concluída, porque é um trabalho constante, sem fim. Mas vocês agarraram isso e estão transformando em realidade(...)”

“Talvez a FCA seja a unidade da Unicamp onde há mais equilíbrio entre ensino, pesquisa e extensão – pelo menos entre as unidades que eu conheço. A Unicamp tem muito a aprender com a FCA. Quando se cria um modelo como o que existe aqui, há a chance de, pelo menos em algumas ações, ir além dos marcos disciplinares. E qual a vantagem disso? É o aumento da criatividade, do potencial de criação e consequentemente a melhora da qualidade de ensino(...)”

“A influência da presença da Unicamp em Limeira é visível, todo o entorno aqui está completamente mudado. A universidade transforma a realidade em várias frentes, não somente porque forma pessoas. Ela transforma – certamente porque forma pessoas – mas a presença dela, a interação com o ambiente, modifica toda a paisagem do entorno, a relação com a cidade, a autoestima das pessoas, etc....cria-se um processo virtuoso que, justamente na composição das missões de ensino, pesquisa e extensão, que tudo fica ainda mais virtuoso. Podemos aprender muito com vocês aqui”.

Prof. Sérgio Salles – diretor do Instituto de Geociências

 

“A tríade ensino, pesquisa e extensão não dá conta do que é a identidade da FCA”

“Não consigo dissociar minha gestão da minha própria vida pessoal, porque trabalhei com todos os outros diretores, os anteriores e o atual. Inclusive com o Mauro[Tereso], pois eu fazia parte do GT2 de Limeira e nós passamos uns 06 meses discutindo como seria o Núcleo Básico Comum. Eu achei fantástico o peso que as disciplinas de humanidades teriam em todos os cursos, mas apontei que todas as disciplinas concentradas nos dois primeiros anos, seria difícil funcionar... Depois, com o convite para vir para a Faculdade, eu ajudei a desmontar e construir e reconstruir o que havia sido pensado originalmente, inclusive os quatro cursos de gestão que se transformaram em dois de administração (...)”

“Quem montou a arquitetura inicial da instituição foi o Prof. Sérgio, inclusive com o Planejamento Estratégico, com todas as metas e o que precisaria ser feito para que, no final de 2012, nós tivéssemos a congregação, com 20 membros. Era impossível ter mais, porque a comunidade era muito pequena. Começou então a nova gestão, agora institucionalizada – antes, as principais decisões eram tomadas fora da Faculdade, pelo grupo no Conselho Universitário e o diretor era pró-tempore, ou seja, indicado pela Administração Central do campus de Barão Geraldo. E tem uma coisa que eu não aprendi com ninguém, mas senti na pele: a gestão de uma unidade institucionalizada, onde as decisões colegiadas são internas e não externas, é algo completamente diferente de toda experiência que eu tinha construído. Esse aprendizado foi difícil pra mim. Aprender a fazer isso, eu como diretor e a comunidade também, custou bastante tempo. E isso veio junto com uma crise de identidade que foi a ideia de trazer a Faculdade de Tecnologia para este campus. Esta foi uma discussão nada fácil, mas muito positiva. Quando soubemos desta diretriz, iniciou-se uma discussão interessantíssima sobre qual seria a identidade da FCA. O que é a FCA? Todo o espaço do campus? Ou as pessoas? Ou é a identidade dos nossos cursos, dos nossos programas? Foi uma discussão absolutamente necessária e muito interessante.

E essa tríade ensino, pesquisa e extensão não dá conta do que é a identidade da FCA. Nós estamos acostumados a olhar a universidade a partir dessas três missões, mas este modelo não dá mais conta. Eu gosto de um pedagogo americano do final do século passado, Ernest [LeRoy] Boyle, que tem um clássico na área que se chama ‘Scholarship Reconsidered’, e que propõe, no fim deste livro, cinco missões: ensino, pesquisa (que ele rebatiza como ‘descoberta’); extensão (‘aplicação’); integração (interdisciplinaridade e indissociabilidade – nós sempre falamos sobre ensino, pesquisa e extensão mas nunca discutimos o que é a indissociabilidade entre essas três missões); e engajamento com a sociedade (já que, para ele, extensão não é suficiente).

Este engajamento tem um formato extremamente interessante na FCA, que a gente percebeu desde o início, quando chegamos aqui em 2009, mas que foi se consolidando com o tempo e hoje faz parte do estatuto: o protagonismo do corpo discente. A imagem e o papel da FCA na cidade e na região não se dá apenas através do trabalho dos seus docentes e funcionários, mas em grande parte devido às ações de aproximadamente 30 organizações estudantis cuja participação direta chega a ser de 20 a 25% do corpo discente(...)”

“Bem no começo da minha gestão, eu fiquei muito contente, não me esqueço deste dia, quando nós fizemos uma reunião de Planejamento Estratégico (herança do aprendizado com o Prof. Sérgio Salles) e discutimos e escrevemos em conjunto, em cartolinas que grudamos nestas paredes, quais seriam os valores e os anseios da FCA. Foi uma discussão fantástica. Outro momento de felicidade que eu gostaria de mencionar foi no final da gestão, quando foram aprovados os programas de pós-graduação em Administração.”

Prof. Peter B. Schulz – docente da FCA e atual Secretário de Comunicação da Unicamp

 

“Cada um aqui, a seu modo, representa uma resistência a esta falta de visão ou visão perniciosa do que é a Universidade”

“Sou do grupo dos primeiros 12 docentes contratados para a Faculdade e, de certo modo, participei da história de todos vocês, o que foi uma honra. Aprendi muito. Com cada um aprendi algo diferente e me espelho em todos vocês. Cometo erros também, alguns dos quais cometidos anteriormente. No entanto, vejo que existe um traço comum entre todos vocês, que é a preocupação com a Universidade. Existem muitas visões de universidade, a gente pode concordar com elas ou não, mas existe também uma anti-visão da universidade. E cada um aqui, a seu modo, representa uma resistência a esta falta de visão ou visão perniciosa do que é a Universidade. E entendo, talvez exageradamente, que a construção da FCA é uma possível resposta da Universidade à sociedade. Às vezes, coletivamente, falhamos nesta construção, porque temos referenciais diferentes e eles estão sempre em disputa, mas o que eu tenho visto nestes 10 anos é que tais disputas também estão ajudando na construção de uma instituição diferente. Penso, portanto, que foi acertada a decisão da Unicamp de criar a FCA, a qual, às vezes por caminhos tortos, vem dando algumas respostas importantes, até para além do que é possível. Espero que encontros como esse se tornem uma tradição e agradeço muito a presença de todos vocês.”

Prof. Álvaro de Oliveira D’Antona – atual Diretor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp

 

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