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Trabalhando com pesquisa: quem são e o que fazem os bolsistas CAPES da FCA

A Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp é o local de trabalho de 33 alunos pesquisadores que recebem bolsas de mestrado (R$ 1.500,00) ou doutorado (R$ 2.200,00) da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para desenvolver aqui suas investigações científicas.

Muitas vezes, a dedicação às pesquisas pode consumir até mesmo mais do que 40 horas semanais, já que a rotina destes cientistas normalmente inclui assistir e ministrar aulas, realizar inúmeras leituras, desenvolver experimentos em laboratórios, fazer trabalho de campo, coletar e tabular dados, escrever artigos científicos, participar de grupos de estudos e reuniões com orientadores, apresentar trabalhos em congressos e escrever e rever incontáveis vezes suas dissertações ou teses, entre outras atividades. Ainda assim, no Brasil, a profissão de cientista não é reconhecida e, portanto, nenhum bolsista CAPES recebe 13º salário, férias ou se beneficia de qualquer outro direito trabalhista. Muita gente que não vivencia a academia, inclusive, pensa que pós-graduação não é trabalho.

 

“No Brasil, a profissão de cientista não é reconhecida e, portanto, nenhum bolsista recebe 13º salário, férias ou se beneficia de qualquer outro direito trabalhista. Muita gente que não vivencia a academia, inclusive, pensa que pós-graduação não é trabalho”.

 

Como se não bastasse, os investimentos governamentais em ciência e tecnologia estão experimentando cortes drásticos atualmente, provocando manifestações inéditas das principais agências de fomento à pesquisa científica e formação de pesquisadores brasileiros, como a própria CAPES e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Veja neste link a nota da CAPES sobre o que ocorreria caso os cortes no orçamento da agência fossem realmente efetivados (o governo voltou atrás após manifestações) e veja neste outro link a carta aberta do CNPq, intitulada “A Ciência Brasileira está em Risco” (ambos os documentos são de agosto/2018).

 Levando esse cenário em consideração e com o objetivo de divulgar quem são e o que fazem os alunos de pós-graduação da Faculdade, entrevistamos alguns deles para 17ª edição da da revista FCA Abre Aspas, divulgada no final de setembro (confira a edição completa neste link). 

Veja alguns depoimentos:

 

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Vanderléia de Souza da Silva, 34 anos, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Administração 

 

Estudo a eficiência dos gastos públicos municipais. No mestrado estudei essa eficiência para os gastos públicos municipais em saúde no estado do Paraná. Já no doutorado, estudo a eficiência dos gastos públicos dos municípios brasileiros com a promoção do bem-estar dos munícipes, em relação aos investimentos em saúde, educação, segurança, habitação e transporte.”

Com essa pesquisa busco demonstrar quais são os municípios mais eficientes na promoção do bem-estar e encontrar fatores intervenientes (fatores exógenos – aqueles que não estão diretamente relacionados à gestão pública, como, por exemplo, economia, renda dos cidadãos, ocorrência de doenças, etc.), para dirimir seus impactos, auxiliando os gestores públicos no processo de tomada de decisão para melhor alocação dos recursos no futuro.

Dedico 24 horas semanais no desenvolvimento das atividades do curso e pesquisas, e 16 horas semanais assistindo as disciplinas. Se a minha bolsa fosse cortada teria que reduzir a carga horária de atividades e pesquisas para 4 horas semanais e apenas cursar duas disciplinas por semestre (8 horas semanais), devido ao fato de ter que dedicar tempo na preparação de aulas e na atuação como professora universitária.”

 

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Carolina Silva Freixo, 26 anos, formada em Gestão de Políticas Públicas, mestranda do Programa de Mestrado em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas

Meu mestrado é sobre sobreposições territoriais de terras indígenas ou quilombolas com áreas protegidas (unidades de conservação ambiental). Há uma relevância porque estou tentando construir esta categoria das sobreposições, para olhá-la a partir de conceitos já estabelecidos, como território, políticas públicas e o conceito de população. Para embasar essa teoria, pesquiso a cidade de Santarém, no Pará, onde há sobreposições para serem mapeadas. Tento compreender como elas se dão, as instâncias políticas envolvidas, se há falta de legislação, etc. É um tema pouco estudado e que aponta certas fragilidades e interesses englobados nessa questão.

Passo uma boa parte do meu tempo tentando ler toda bibliografia que me dispus a ler e dando aulas no cursinho Colmeia. Uns dias são para a dissertação, outros para as disciplinas e muitos para a escrita do trabalho, pelo menos oito horas por dia, pois qualifiquei em agosto e tenho seis meses para defender.

Fiquei muito apreensiva quando soube da notícia da possibilidade do corte das bolsas, porque elas são essenciais para manter a pesquisa viável, ainda que não passem por nenhum tipo de reajuste. Tudo isso me preocupa muito porque a universidade já esta sendo sucateada e, com a perda das bolsas, o sucateamento só aumentaria. Fiquei imaginando se conseguiria fazer um doutorado, pois eu me sustento com a bolsa, ela é essencial para que eu possa manter os estudos. Sinto bastante angústia de não saber o que vai realmente acontecer nos próximos momentos”.

 

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Keyla Ketlyn Passos Pimenta, 29 anos, advogada, mestra Interdisciplinar em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Administração.


"Minha pesquisa versa sobre o desenho das práticas inovadoras do Poder Judiciário no Brasil. Trata-se de um tema relevante uma vez que a inovação ocupa lugar central na “economia baseada no conhecimento”. Falamos de um processo de valor estratégico que pode ocorrer em qualquer setor da economia, sendo particularmente importante para o setor público. Porém, pouco se sabe sobre a inovação nos setores não orientados ao mercado, sobretudo no se refere ao Poder judiciário. Estudos acadêmicos sobre inovações introduzidas em órgãos do judiciário ganharam destaque apenas nos últimos anos e são ainda incipientes. Ainda, o poder judiciário tem ocupado um papel protagonista no Estado contemporâneo e suas atividades têm sido ineditamente tratadas sob um ponto de vista gerencial, sobretudo em razão da Emenda Constitucional nº 85, que impulsionou a elaboração de programas em gestão e inovação com vistas ao melhoramento da eficiência desse poder na entrega da prestação jurisdicional ao cidadão.

Durante os dias da semana, com exceção dos horários em classe, fico nas dependências do Laboratório de Estados do Setor Público (LESP), do qual faço parte e em que há um ambiente tranquilo, bem como acesso ao acervo e outros materiais necessários às atividades de pesquisa. Entretanto, as atividades de pesquisa demandam um alto grau de concentração e criatividade sendo, por vezes, pouco lineares, o que exige do profissional alguma maleabilidade nos horários de trabalho (finais de semana e madrugadas por exemplo). Eventualmente também vou a campo para coleta de dados.

Recebi com pesar a notícia sobre a possibilidade de corte das bolsas. Por um lado, os profissionais do campo já enfrentam dificuldades dada a não regulamentação da profissão de pesquisador/cientista, que é remunerada com o que chamamos de bolsa, modalidade especificamente pensada para afastar quaisquer benefícios de cunho trabalhista. As bolsas disponibilizadas pelas CAPES fazem parte de um reduzido rol de recursos voltados à manutenção das atividades de pesquisa junto às universidades públicas no país. Nesse sentido, a notícia representou uma possibilidade de sucateamento ainda maior das atividades de pesquisa, cujos profissionais percorrem uma longa e, por vezes, tortuosa formação. A consolidação da carreira desses profissionais, na maior parte, só ocorre depois de mais de uma década de trabalho e formação, com a entrada na docência via concurso ou instituição privada. Por outro lado, agora sob uma visão mais ampla, também não parece ser do interesse público o desinvestimento nas atividades de pesquisa, sustentada maciçamente polos estudantes de pós-graduação strictu sensu. As atividades de pesquisa são uma questão estratégica tanto para Estado e para o mercado, contribuem diretamente na busca por soluções para problemas de grande severidade nos mais diversos contextos. Posto isso, nada parece justificar o apontamento do corte.

 

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Luis Bruno de Godoy, 31 anos, ator, cientista do esporte e mestrando do Programa de Mestrado em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas

 

"Entrei em Ciências do Esporte já habilitado em Artes Cênicas e com foco em trabalhar com arte. Durante a graduação, descobri que poderia trabalhar com pesquisas relacionadas ao jogo e, a partir de uma iniciação científica, entrei no Mestrado em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas.

Pesquiso a figura do palhaço como um agente responsável por causar afetações. Olho para as relações pessoais e socioculturais na sociedade contemporânea, as quais estão cada vez mais virtuais e vazias, e me pergunto de que formas o palhaço pode ser um instrumento de reflexividade para os indivíduos, ou seja, de que maneiras pode ajudar a fomentar reflexões sobre nossa própria existência e modos de vida. Nós perdemos a capacidade de afetar e de sermos afetados tanto pelos outros como por aquilo que nos circunda e o palhaço entra nestas relações como um possível agente de resgatar estas afetações. Palhaços estão presentes em vários ambientes hoje: teatro, circo, rua, zona de conflito, hospitais, catástrofes ambientais, campo de refugiados...isto porque a atuação do palhaço estimula o olhar para o ser humano. O palhaço expõe todos os seus ridículos, suas mazelas e fracassos para o mundo e serve como um espelho para que a sociedade identifique seus próprios ridículos, mazelas e fracassos, promovendo talvez uma possibilidade de aceitação e retorno à condição humana.

Minha rotina de trabalho envolve escrita e revisão constantes da dissertação, leituras, busca de bibliografia, pesquisa de campo, coleta e tabulação de dados e escrita do diário de campo; transcrição das entrevistas, elaboração de artigos e participação em eventos para apresentar os trabalhos, além das oficinas que elaboro e ministro semanalmente.

É difícil até falar sobre a possibilidade deste corte das bolsas que estava previsto. Mas pra mim, isso já era esperado – é um reflexo da forma de pensar dos nossos governantes. Nosso atual governador não disse para a FAPESP que ela deveria priorizar pesquisas importantes? Então a gente imagina que, para eles, muita coisa é insignificante, coisas que não geram resultados práticos, no entender deles. A notícia foi muito impactante. Se a ciência parar, a crise pela qual o Brasil está passando só tende a piorar...e nós não estamos falando somente daquelas pesquisas que o governador considera irrelevante, estamos falando também da saúde, economia, agronegócio, etc. Nós já sofremos com a má qualidade da educação básica e do ensino médio e, no longo prazo, com o sucateamento do ensino superior e da produção científica, vamos sofrer ainda mais como país”.