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Entrevista - “Criamos um sistema alimentar completamente dependente de combustível fóssil”

 

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“Alunas e Professora ao final das apresentações dos trabalhos de conclusão do curso de Nutrição. Da esq. para dir.: Bianca, Ana Carolina (mãe do Antônio), Profª Julicristie (com Antônio no colo), Catarina, Marina e Mariana”.

 

 Entrevista com Julicristie Machado de Oliveira 
(Originalmente publicada na 16ª edição da revista eletrônica FCA Abre Aspas)

 

Julicristie Machado de Oliveira, nutricionista formada pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, é docente do curso de Nutrição da FCA Unicamp. Nesta entrevista, ela comenta sobre as relações entre a recente paralisação dos caminhoneiros e nosso sistema alimentar, completamente dependente de combustível fóssil. Fala também sobre comensalidade, memórias gustativas e de como o comer e a comida precisam ser estudados e compreendidos para além dos aspectos nutricionais. “É importante que o nutricionista entenda que comer não pode ser somente baseado em cálculo de nutrientes. Comer significa muito mais”. Confira abaixo.

 

Como a recente paralisação de caminhoneiros e consequente crise de abastecimento de combustíveis no país, a qual em alguns lugares também gerou desabastecimento de alimentos em supermercados, pode nos ajudar a refletir sobre os modos de produção e consumo de alimentos atualmente?

Esta paralisação causou uma série de transtornos em relação ao abastecimento alimentar e isso deixa bem claro que criamos um sistema que é completamente dependente de combustível fóssil. Tanto é que, internacionalmente, quando há crise do petróleo, as crises alimentar e econômica acabam se sobrepondo. Este é um problema grande porque, a partir do momento em que criamos esta vinculação, deixamos de utilizar outras formas de escoamento de alimentos que poderiam ser mais sustentáveis, como a malha ferroviária e a hidroviária, por exemplo. Esses são sistemas que deveriam ser mais utilizados para diminuirmos nossa dependência de combustível fóssil no processo de abastecimento.

Poderíamos também fomentar alguns circuitos mais curtos de produção de alimentos: uma agricultura periurbana e até a própria agricultura urbana. Não acredito que uma cidade consiga produzir tudo que é consumido, mas pelo menos uma parte dos alimentos poderia ser produzida em terrenos públicos, praças, escolas, ou nas áreas periurbanas, para que a gente pudesse ter um abastecimento menos dependente de um sistema rodoviário e de uso de combustível fóssil.

 

Quando consumimos certo alimento, o que é importante saber sobre ele?

É importante saber sobre o processamento do alimento, a origem do ingrediente, como ele foi tratado na indústria, os aditivos que recebeu. Mas também é importante ter noção sobre as relações de trabalho que existem por trás deste alimento, o nível de exploração ambiental...temos hoje vários ingredientes que são conhecidamente causadores de grandes impactos ambientais – o óleo de palma, por exemplo, é um alimento muito utilizado pela indústria, mas sabemos que ele tem uma relação muito grande com o desmatamento, principalmente nos países da África. A soja é um outro alimento que tem avançado muito com o desmatamento da floresta amazônica. Então é importante que a gente tente entender as relações políticas e econômicas que estão por trás dos alimentos, para além dos aspectos nutricionais.

Mas como alguém que não é da área de nutrição pode pesquisar e conhecer mais sobre isso?

Hoje em dia há bastante divulgação sobre isso. Existem vários movimentos sociais levantando essas bandeiras e discutindo esses problemas do sistema alimentar – o movimento agroecológico, vegetariano, vegano, o movimento dos trabalhadores sem terra... todos eles têm discutido muito essas questões e proposto alternativas para que possamos acessar os alimentos e criar um sistema alimentar mais sustentável e justo.

Além dos movimentos sociais, há muitos documentários bons hoje em dia. Um deles é ‘Sob a pata do boi’, documentário brasileiro que discute o desmatamento na Amazônia para criação de pastagens. Hoje em dia há também muitos documentários-denúncia e vários cineastas abraçando causas ambientais.

Considerando o padrão alimentar brasileiro, podemos falar em mudanças significativas nos últimos 20 ou 30 anos? Quais seriam elas e por que ocorreram?

Sim. Ocorreu, por exemplo, o aumento da produção e consumo de alimentos industrializados, já que a indústria alimentícia cresceu muito no pós-guerra, em vários países, e no Brasil também. Nesse período, houve uma alavancada na ciência e tecnologia de alimentos, o que não é necessariamente sempre ruim – alguns processamentos promoveram uma conservação maior de alguns alimentos e isso é importante – só que uma radicalização muito grande desses processamentos trouxe também uma série de problemas. Excesso de gordura saturada, sódio e açúcar na alimentação foram alguns deles. Tais componentes não teriam uma participação tão expressiva em nossa alimentação de não fosse a indústria.

Uma outra questão foi a redução do consumo de feijão, principalmente pelas classes mais abastadas, e o aumento muito expressivo do consumo de carne. Hoje temos um consumo de carne muito mais elevado do que tínhamos há duas ou três décadas. São questões que certos movimentos sociais têm discutido: direitos animais, impacto ambiental da produção de carne, a concorrência que se estabeleceu entre agricultura e criação de pastos na ocupação de terras, o avanço da pastagem na Amazônia, que é um outro problema muito grande.

Considerando o que conversamos até agora, qual a importância da inclusão de discussões sobre as relações existentes entre nutrição, política e cultura na formação de nutricionistas, como acontece no curso da Faculdade?

Atualmente os nutricionistas têm atuações cada vez mais diversificadas. Uma delas é trabalhar com políticas públicas de alimentação e nutrição, políticas públicas de segurança alimentar e nutricional. E a segurança alimentar e nutricional é interdisciplinar e intersetorial, então é muito importante que pessoas de diferentes áreas, tanto na pesquisa quanto na prática da implementação da política conversem e se entendam, para poder criar um sistema alimentar que seja sustentável e promotor do direito humano à alimentação adequada e saudável.

Para garantir esse direito às pessoas, é preciso que nutricionistas, agrônomos, economistas, sociólogos, advogados, entre outros especialistas, conversem entre si. Então, a sensibilização de que o olhar para a alimentação tem que abranger outras questões (além do aspecto biológico da nutrição) é muito importante para que os nutricionistas atuem de forma mais abrangente e efetiva.

Não podemos ficar isolados somente na recomendação dietética do nutriente e esquecer as relações que estão por trás do sistema alimentar – não só as questões políticas, mas também os aspectos culturais. A alimentação é um marcador de identidade – ela diz sobre um povo, uma nação, as trocas que ocorreram, os processos de ocupação territorial, etc... a comida reflete tudo isso, tem uma riqueza muito grande, é histórica e expressa muitos elementos. Então, é importante que o nutricionista entenda que comer não pode ser somente baseado em cálculo de nutrientes. Comer significa muito mais.

Dividir uma refeição, a comensalidade, por exemplo, também é importante para a saúde – não somente os nutrientes que compõem aqueles alimentos. As memórias gustativas que guardamos da alimentação e os momentos que dividimos com as pessoas queridas também são processos importantes relacionados à saúde e são promotores dela.

 

As palavras saber e sabor tem a mesma origem etimológica. Que conhecimentos podemos adquirir através dos sabores das comidas, além do próprio paladar?

Através do próprio paladar, através dos sabores, é possível aprender sobre culturas. Há um autor, Massimo Montanari, que diz que a comida é uma linguagem. Às vezes é mais fácil aprender sobre uma determinada cultura através da comida: como se come, as regras na mesa, os horários, o que compõe cada refeição, etiquetas, como se usa os talheres, os nomes das refeições, as razões das diferenças na nomenclatura... Por que no Brasil dizemos café da manhã e em Portugal ‘pequeno almoço’?

Pelo paladar, pela experiência do gosto, do sabor, aprendemos na prática como diferenciar o que é comestível do que não é. A humanidade precisou experienciar, na prática, a relação com os alimentos, já que há várias plantas tóxicas e sempre foi preciso escolher o que comer e como. Essa é uma experiência importantíssima para a evolução da humanidade, para a manutenção dos povos – saber diferenciar um alimento tóxico de um não-tóxico. É um conhecimento muito tradicional, por exemplo, das mulheres indígenas do Rio Negro, que sabem identificar uma mandioca brava* sem precisar levá-la para fazer nenhum teste em laboratório. Elas sabem identificar a planta e manejá-la, eliminando a toxicidade do ácido cianídrico e tornando-a comestível. Esse é um conhecimento muito rico e é de experiência. É um conhecimento tão importante quanto o conhecimento acadêmico em relação à alimentação.

(*A mandioca brava é uma variedade que contém ácido cianídrico, o qual, se ingerido, pode causar distúrbios gastrointestinais e neurológicos, levando a pessoa ao estado de coma ou causando morte)

 

E aquela questão, que também é abordada na filosofia, sobre os valores comparativos dos sentidos e o paladar sendo considerado como um sentido menos nobre...?

O sentido do paladar é muitas vezes colocado como um sentido inferior. No livro ‘O gosto como experiência’, o filósofo Nicola Perullo conta como, ao longo da história, tudo o que é apreciado através da visão e da audição foi mais valorizado, já que esses seriam sentidos mais distantes do corpo e, portanto, permitiriam um julgamento mais preciso. E aquilo que é experienciado mais organicamente, através do paladar e do olfato, não é tão valorizado como conhecimento.

 

Quais são os trânsitos entre alimentação, nutrição, artes, literatura e cinema?

Na minha experiência como docente do curso de nutrição, as artes plásticas, a literatura e o cinema são atalhos importantes para que os alunos, expostos a um curso que é muito voltado para o conhecimento biológico, entrem em contato com os outros aspectos da alimentação. São ferramentas didáticas muito úteis para que eles possam entender que a comida simboliza, ou seja, pode dizer coisas importantes sobre determinados grupos populacionais, expressar cultura, ter diferentes sentidos, etc...

Por exemplo, um dos trabalhos que minhas alunas fizeram na disciplina de Educação Alimentar e Nutricional foi entender por que, em um casamento, se utiliza chuva de arroz e o que isto significa. Elas trabalharam com um quadro de arte naïf e desdobraram a história do arroz. Investigaram que tipo de arroz temos hoje disponível no mercado, qual é o valor nutricional desses diferentes tipos de arroz, descobriram que a chuva de arroz no casamento significa prosperidade e explicaram essa história também, conseguindo estabelecer uma relação entre os aspectos nutricionais e simbólicos do alimento e também a maneira como ele se expressa na culinária. Ao final da atividade, elas ofereceram uma degustação de bolinho de arroz, que é uma receita que é muito comum no Brasil, normalmente feita a partir do arroz que sobra da refeição.

Há outras possibilidades, como o cinema. Ele pode ser interessante para entendermos outros aspectos da alimentação, como a comensalidade, os vínculos que podem ser estabelecidos através da comida ... tem um filme muito bonito, ‘Lunchbox’, no qual um homem e uma mulher se conectam por uma marmita errante. A marmita chega na pessoa errada e, a partir deste momento, eles começam a trocar bilhetes e a história se desenrola. É um filme muito interessante para mostrar como o sabor pode expressar sentimentos…vou fazer um spoiler, ok? Em certo momento do filme, ela fica com raiva dele e aí apimenta demais a comida (risos)... e ela não precisou falar ou escrever mais nada, ele entendeu...ele percebeu, pelo sabor da comida, que ela estava com raiva dele e então ele escreve para pedir desculpas...então, é isso, a gente pode comunicar pela comida também.

É engraçado que, quando a gente está com raiva de alguém, ou chateado com a pessoa, a gente não quer comer com aquela pessoa ou sentar à mesa com ela...Mas, ao contrário, quando a gente gosta muito de alguém, ficamos felizes de poder sair com a pessoa para dividir uma refeição. Isso porque a partilha da comida, a comensalidade, estreita os vínculos afetivos. A gente pode aprender sobre isso na nossa própria experiência de vida, mas também pelo cinema. O filme ‘A Festa de Babete’ também é outro filme interessante para pensar sobre essas questões....e há inúmeros outros filmes bons para pensarmos nossa relação com a comida.

Com a literatura, é a mesma coisa. Rubem Braga, por exemplo, gostava muito de plantar. E gostava muito de falar sobre estas questões cotidianas que a gente, às vezes, banaliza, mas que são muito importantes, como a fruta, o passarinho, a árvore, o sol... todas questões que aparecem muito nas crônicas de sua autoria. Ele fala muito de memória gustativa, de como eram as pitangueiras de antigamente, quando ele era criança, e de como elas mudaram... fala muito das frutas da própria infância, conta que cada família tinha um pé de fruta no quintal, o qual as identificava. Na casa dele, a família tinha um pé de fruta pão, que é uma fruta de origem asiática, rica em carboidrato...e aquela fruta identificava aquele lugar... Então, a partir dessas relações que ele estabelece com as frutas, há uma expressão de lembranças de infância, memórias gustativas, de momentos que foram partilhados.

Portanto, a literatura, as artes plásticas e o cinema podem nos ajudar a trazer o sensível da alimentação para dentro da nutrição. É essa ponte que eu procuro fazer: trazer o sensível da alimentação para a formação dos nutricionistas – os vários significados que a comida pode expressar, as relações afetivas que se estabelecem através dela, etc...

Penso que a nutrição pode ser muito dura às vezes, muito baseada em cálculo, regras, normas, muito prescritiva, muito normativa....os corpos devem ser assim, as refeições devem ser assado...tudo é muito cheio de regras. E quando a gente chega com esse monte de regras, às vezes, as pessoas têm dificuldade de colocar isso em prática, justamente porque a comida tem outros significados, outros sentidos. É difícil transformar o alimento em um combustível...comida não é combustível. Comida é outra coisa. Então, é importante que a gente entenda isso.

 

Abre Aspas Nº 16: está no ar nova edição da revista eletrônica da FCA

 

Matéria de capa – Greve dos caminhoneiros: o que ela diz sobre nossa alimentação?

Espaço Opinião – “Brasil e o desafio fiscal”, por Luiz Eduardo Gaio, docente dos cursos de Administração e Engenharia de Produção.

Retratos do Bimestre – Nossa história cotidiana em imagens

Relações com a Sociedade – Integra organiza 1ª feira de empreendedorismo de Limeira com Associação Comercial

Eventos – Mulheres e Esporte: contexto e perspectivas

 

Confira a edição completa clicando na imagem abaixo! 

 

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Defesas e qualificações de mestrado e doutorado em julho: confira datas e horários

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(fonte: Memes Filosóficos y Científicos)

 

Durante o mês de julho serão defendidos 06 trabalhos de pesquisa dos alunos de pós-graduação da FCA. 

As qualificações e defesas de dissertações de mestrado e teses de doutorado podem ser acompanhadas pelo público. Se você tem interesse em participar, como ouvinte, fique à vontade para comparecer.

 

 

Qualificação Vitor Rosetto Munoz 05 07 18 CNEM 1

Defesa Paulo Henrique Canciclieri 06 07 18 CNEM 1

Qualificação Janaina Aparecida Joaqueim de Oliveira 12 07 18 EPM 1

Defesa Beatriz Rocchetti Sumere 12 07 18 CNEM 1

Defesa Murilo Gattás Arthus 13 07 18 EPM 1

Defesa Marcelo Orpinelli de Marco 31 07 18 EPM 1

Vivência técnica em Administração Pública na esfera federal: inscrições abertas até 15 de julho

 

Estão abertas até 15 de julho as inscrições para a Vivência Técnica em Administração Pública na Esfera Federal e alunos interessados devem acessar este link para realizar inscrição. 
A oportunidade será realizada anualmente e foi elaborada e programada pelo curso de Administração Pública como prioridade durante o Planejamento Estratégico da Faculdade, que ocorreu em fevereiro deste ano. A vivência técnica aprofundada terá duração de 1 semana, entre 18 e 25 de agosto de 2018, e será realizada em Brasília, com visitas a diferentes órgãos dos poderes executivo e legislativo. "O objetivo desta atividade é proporcionar uma imersão dos alunos na realidade prática da administração pública da esfera federal, assim como um aprofundamento em seus conhecimentos do setor público", explica a Profa. Juliana Leite. 
Segundo ela, tal atividade está vinculada às disciplinas PG200 (Estado, Burocracia e Políticas Públicas), PG201 (Sistemas de Proteção Social), PG801 (Laboratório de Políticas Públicas II) e PG 800 (Formulação, Implementação e Avaliação de Políticas Públicas), as quais são fundamentais durante o curso e englobam a participação de quatro docentes (Juliana leite, Milena Serafim, Oswaldo Gonçalves Junior e  Paulo Van Noije). "Vale apontar que este tipo de atividade é realizada em todas as universidades públicas que possuem curso de Administração Pública e afins. A vivência no setor público é de extrema importância para a formação dos nossos alunos, já que aporta materialidade ao conhecimento prático, traz identidade ao curso e perspectivas de atuação". 

 

VIVÊNCIA TÉCNICA 1

Aluno da FCA está em relatório da OCDE que destaca empreendedores precoces no Brasil

"Alex Matioli, de 27 anos, cursa administração de empresas na Unicamp e divide o tempo entre as aulas, o emprego em uma luderia – um bar especializado em jogos de tabuleiro – e a Rubian, startup que fundou em 2015. “O objetivo é desenvolver extratos bioativos para aplicação em cosméticos e nutracêuticos, um tipo de suplemento alimentar.” A empresa realiza pesquisas com urucum e maracujá em parceria com a Unicamp, com apoio do programa PIPE, da FAPESP.

Para o estudante, um obstáculo que precisou superar foi a falta de recursos para tirar a empresa do papel. “Não queria contar apenas com a ajuda financeira dos meus pais, por isso comecei a trabalhar em um bar e a juntar dinheiro. Também foi fundamental a ajuda de um mentor empresarial, que se tornou sócio e investidor da Rubian.” Confira a matéria completa no Portal da Unicamp. 

 (Com informações da Revista FAPESP e Portal da Unicamp)

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Alex Matioli (esq.) e Vinícius Freitas, que fundaram suas startups enquanto ainda cursavam a graduação  | Foto: Léo Ramos Chaves - Pesquisa FAPESP

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